terça-feira, 10 de maio de 2011

não há motivo para te importunar a meio da noite

não há motivo para te importunar a meio da noite
como não há leite no frigorífico
nem um limite traçado para a solidão doméstica.



tudo desaparece.
nada desaparece.
tudo desaparece antes de ser dito
e tu queres dormir descansada.


tens direito a um subsídio de paz.


se eu escrever um poema
esse não é para te importunar.


eu escrevo muitos poemas
e tu trabalhas de manhã cedo.


toda a gente sabe
que a noite é longa.
não tenho o direito de telefonar
para te dizer isso.


apesar dessa evidência
me matar agora.
e morro.
mas não morro.


se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste?
se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?
ou não atendias.


e eu ficava aqui.
com a noite ainda mais comprida,
com a insónia.


com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.


José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis

segunda-feira, 25 de abril de 2011

quinta-feira, 17 de março de 2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Plim...

Faz hoje um ano que pisei este chão pela primeira vez! Sinto-me cansado… queria que o tempo fosse e “plim”, aparecia já noutro espaço e tudo isto faria parte do passado.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Liberdade

    Chegou a horas, como, aliás, chegava todos os dias. Disse bom dia, pousou a mala e sentou-se.  Percebeu que o dia se tinha tornado ainda mais cinzento do que quando saiu de casa. Não dera por isso durante a curta viagem que fez de casa até ao local de trabalho. Há dias que andava assim. Preocupado com a falta de inspiração para escrever o que quer que fosse, aparecia agitado, tenso e os seus movimentos eram mais descoordenados do que o habitual.
    Agora, pensava nas horas a fio que iria passar naquele quadrado de paredes brancas em que nada era susceptível de lhe despertar a menor vontade para escrever o que quer que fosse. Pensou que se ao menos pudesse abrir a janela para o ar circular… mas logo se lembrou de que ali não havia nenhuma janela para abrir.
    Tinha na cabeça a imagem perfeita e nítida do que queria escrever, só não sabia como transformar essa imagem perfeita e nítida em palavras… se pudesse fazer um desenho, seria muito mais fácil, mas não, não era um desenho que tinha de fazer.
    Pegou, mais uma vez, nos papéis que tinha a seu lado na secretária.
    Tocou o telefone. Sentiu o coração bater mais depressa. Sempre que o telefone tocava, pensava que seria para ele. Não era. Nunca foi para ele que o telefone alguma vez tocou.
    Levantou-se abruptamente e dirigiu-se para a saída. – Vou-me embora! – disse. – Amanhã passo cá para levar as minhas coisas. E bateu com a porta com uma sensação de vitória por saber que seria aquela a última vez que estaria ali.
    Acendeu um cigarro e saboreou-o como se aquele fosse o seu último cigarro. E era. Era o último cigarro que fumava depois de sair daquele lugar, porque nunca mais tornaria ali. Aquele lugar, o lugar onde viveu uma vida que não foi sua. Uma espécie de vida sem qualquer comparação com outra espécie de vida que tivesse vivido até então. Agora estava vivo. Há dez minutos atrás esteve morto. Morreu quando lhe tiraram o que de melhor ele tinha: o seu númen.
    Acabou o cigarro e meteu-se no carro. Não quis ir para casa… sair de uma prisão e meter-se noutra? Não queria. Foi ver o mar. Gostava de ver o mar nos dias cinzentos. Tentava descobrir no horizonte a linha onde acaba o mar e começa o céu…
    Aos poucos, regressava a ele uma sensação de liberdade que não sentia há muito tempo. Uma sensação que não sentia desde criança, quando os dias pareciam durar semanas, as semanas meses… o tempo era todo dele e não era urgente viver. Uma liberdade para não escrever mais, porque não lhe apetecia escrever. E não escreveu.

Palavras mágicas